Permissão para a imperfeição

Vivemos numa sociedade capitalista e crescemos a idealizar uma vida perfeita, um trabalho bem remunerado, sucesso profissional, um corpo saudável e apelativo, amigos fantásticos, um casamento saudável, uma família linda, uma casa espetacular, viagens pelo mundo, um carro de gama alta, ou perto disso. Estes ideais chegam-nos de fora, mas também os construímos nós, ao longo do nosso desenvolvimento, até se tornarem a ideia que temos de uma vida bem vivida.

E quando não os conseguimos cumprir? Quando não atingimos os objetivos que a sociedade nos coloca, e que nós próprios fomos colocando, onde ficamos? Conseguimos olhar-nos e lidar com a imperfeição da vida que temos? Fugimos? Aceitamos?

A imperfeição não é uma falha da vida. É a sua condição. Não alcançar objetivos, não conseguir ser perfeito, tropeçar e recomeçar. Tudo isto faz parte da vida que todos vivemos, uma vida cíclica e não linear.

Mas será que a sociedade em que vivemos nos permite olhá-la assim? Será que nos deixa aceitar a nossa vulnerabilidade, e a do outro, como parte da vida? E o insucesso também?

Pensa-se muitas vezes que o desejo de perfeição nasce só do capitalismo. Ele amplifica-o e dá-lhe uma montra, mas as raízes são mais antigas: o medo do julgamento, a vergonha, a necessidade de ser aceite. A sociedade capitalista encontra aí terreno fértil e vende-nos a máscara como solução.

Vivemos, então, de máscaras. O carro bonito estacionado à porta da casa fantástica. A família sorridente na fotografia emoldurada e nas redes sociais. E depois a porta fecha-se, e lá dentro as coisas não são assim tão fantásticas, porque todos somos vulneráveis e todos temos dificuldades para gerir, internas e relacionais. Onde fica, então, essa dificuldade? Como podemos lidar com ela, se a imperfeição não tem lugar na imagem que mostramos?

Estaremos prontos para a aceitar? Para olhar para a vida não como um caminho a traçar até um feito maior, mas como um tempo em que é permitido ser vulnerável?

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