A espiral da realidade

A vida é como uma espiral, que gira em torno de um ponto central, a nossa realidade.

Não é um círculo. O círculo repete-se, fecha-se sobre si mesmo e chega sempre ao mesmo sítio. A espiral não. A espiral volta, mas volta sem nunca ocupar o mesmo lugar duas vezes. Aproxima-se do centro, afasta-se, aproxima-se de novo, de um ângulo ligeiramente diferente. Poderá ser a imagem mais verdadeira para o que significa viver. A imagem de que voltamos sempre às mesmas perguntas, mas nunca exatamente da mesma forma.

 

Existem umas perguntas que insistem em voltar: onde fica a realidade? Se não está em nós, onde é que ela para?

 

Sabemos que tudo o que vemos e sentimos passa primeiro pelos nossos olhos, pelo nosso sentir, pelas nossas crenças, nossos medos, nossos desejos. Não é um ponto de observação neutro, onde se ver o mundo "como ele realmente é", despido de nós.

Na realidade, a realidade, passo a redundância, que conheço é sempre a realidade filtrada por mim. E por isso a minha realidade é diferente da tua, que é diferente da realidade de quem está sentado ao teu lado, mesmo que estejam a olhar exatamente para a mesma coisa ou situação.

 Parece quase óbvio. Uma banalidade filosófica que qualquer pessoa entende.

Então se todos sabemos, ainda que vagamente, que a realidade do outro é diferente da nossa, porque insistimos, muitas vezes, em negá-la?

Acredito que não negamos a realidade do outro por ignorância. Negamos porque aceitá-la exige abdicar, ainda que por instantes, do nosso próprio centro. A nossa realidade não é apenas uma perspetiva entre tantas outras. A nossa realidade é o ponto a partir do qual organizamos tudo o resto, ou seja, a nossa segurança, a nossa identidade, as nossas relações. Reconhecer que a realidade do outro é tão válida como a nossa, poderá fazer-nos sair do centro da nossa própria espiral.

 

Por isso, acredito, é mais fácil ver a realidade do outro através dos nossos próprios olhos. Traduzir essa realidade para a nossa linguagem, encaixá-la nas nossas categorias, nas nossas “caixinhas”, corrigi-la quando não bate certo com o que nós conhecemos como "verdade".

Mas ao fazer isto, não estamos verdadeiramente a ver o outro. Estamos, sim, a ver uma versão do outro já traduzida para a nossa própria realidade.

Será isto que nós chamamos de "compreensão"? Deixo a questão no ar.

 

Entender o outro provavelmente começa exatamente aqui: na aceitação, muitas vezes, incómoda de que a nossa realidade, por mais óbvia e sólida que possa parecer, é apenas o centro da nossa própria espiral, e não o centro de tudo. Não é duvidar do que sentimos ou do que vemos, mas sim permitir criar um espaço em nós, para que outro centro, também ele real, possa existir ao lado do nosso, sem que um tenha de anular o outro.

 

Porque a vida é como uma espiral, que gira em torno de um ponto central: a nossa realidade. A pergunta é se conseguimos, de vez em quando, olhar para o lado e reconhecer que existem outras espirais a girar, cada uma em torno do seu próprio centro. Espirais essas, tão reais como a nossa.

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